Thig Smith fala sobre carreira solo – Parte I

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Thig Smith agora vai se dedicar à carreira solo (Arquivo Thig)

“Cê ta no Jaçanã, ta na picadilha”. Que fã de rap não conhece o refrão de Picadilha Jaçanã, do grupo paulista Relatos da Invasão? Em pouco tempo, a música, lançada no disco É o Gigante, de 2006, ganhou destaque e se tornou um dos poucos hits recentes do rap nacional, sendo tocada exaustivamente em bailes, festas e afins, nos últimos três anos. Com ela, o grupo também conseguiu espaço na MTV, que hoje tem em Picadilha Jaçanã um dos únicos clipes de rap nacional da sua programação.

Apesar do início promissor, o Relatos – formado por Thig, Negrinho e Dj Pampa – não deslanchou e teve de se virar em um dos momentos mais complicados da história do rap, em termos de aceitação da mídia e do público em geral. Quase dez anos após sua formação, no final de 2008, o líder do grupo, Thig Smith, decidiu deixar o Relatos da Invasão para seguir sua carreira solo.

No Per Raps, o rapper Thig Smith, de 25 anos, fala pela primeira vez sobre essa nova etapa da sua carreira, sobre o distanciamento do grupo, o sucesso de Picadilha Jaçanã, entre muitos outros assuntos. Aqui você também confere em primeira mão uma música nova, que será lançada como um single para os Dj’s tocarem nas festas.

Confira:

Relatos da Invasão

Nós ainda estamos fazendo alguns shows com o Relatos, mas eu estou partindo pra carreira solo. A gente não vai mais fazer música juntos por enquanto. Eu quero estar sozinho, talvez pelo fato de eu ser muito individualista, egoísta. Eu era o líder do grupo, mas eu não quero ser responsabilizado pela glória ou pela derrota de ninguém, eu sou responsável por mim, só por mim.

Essa conversa de parar com o Relatos foi tranquila, a gente é muito amigo. Sempre fomos de trocar uma idéia bem reta, bem clara, então não teve briga, não teve nada. Eu falei com o Negrinho, expliquei meus motivos, depois fomos no Pampa, conversamos e nos acertamos. Isso foi em dezembro de 2008. Eu não tenho nada pra falar dos caras, eles sempre foram meus parceiros, 100% profissionais. Só que eu gosto de liberdade, então resolvi seguir meu caminho.

Agora a gente – eu, Negrinho e o Dj Pampa – tem que aproveitar o nome do Relatos da Invasão, claro. Temos que aproveitar as mesmas portas que já foram abertas no passado, foi a gente que construiu isso.


Picadilha Jaçanã

Com a música a gente conseguiu fazer show em vários bailes, dos mais elitizados, como a Clash, até o Zezão Eventos, que é mais de raiz, para os pretos mesmo. Então ver minha música tocando no Sambarylove, nesses bailes que eu ia quando era menor, isso foi da hora porque eu não via, não vejo o rap nacional tocando. Eu fico triste por isso, queria que a gente estivesse no mesmo nível dos gringos, queria que tocasse minha música nas festas que eu colo.

Evolução

No disco do Relatos eu ainda tinha certas idéias que hoje eu não tenho. Eu achava que ao falar de um moleque que mora na rua numa música, você estaria ajudando ele, mas hoje eu vejo que isso é errado. Você não ta ajudando ele, você vai ajudar ele se você fizer que nem o Netinho de Paula faz. Ele trampa, corre atrás, e depois ajuda um monte de gente, proporciona a oportunidade de ajudar as pessoas efetivamente. Antigamente revolução pra mim era fazer umas músicas de protesto, nervosas, e hoje eu já não vejo isso da mesma forma.

Revolução hoje pra mim é eu conseguir sobreviver do meu trabalho, ganhar um dinheiro, fortalecer a minha quebrada. Pegar um mano que está vendendo droga na esquina e falar: “Você vai trabalhar pra mim, vai ser segurança do meu show”. Isso é revolução.

Eu sou um cara que gosto de estar no tempo. Eu acho que a música é uma junção do tempo, da ocasião e você ainda tem que ter uma malandragem pra conseguir transmitir aquilo que o seu espírito está querendo dizer. Antigamente eu pegava a caneta pra escrever num momento em que eu estava mais triste ou pensativo, mas agora eu procuro pegar minha parte boa pra escrever, um momento em que eu esteja melhor. Lógico que eu ainda escrevo em outros momentos, mas hoje eu prefiro passar pras pessoas o meu lado bom, ao invés do meu ódio e da minha depressão.

carreira solo

Thig vai fazer músicas voltadas para as pistas e as mulheres (Divulgação)

Eu quero fazer bastante música pra mulher, eu sou um cara romântico. Eu acho que tem que focar bastante as mulheres porque o rap é foda, você sai do palco e vem um monte de homem falar com você (risos). É legal, mas eu queria que as mulheres viessem também, que elas se identificassem. E pra agradar elas tem que seguir a linha delas. Mulher é sensível, não gosta de música pesada, elas querem um som mais agradável.

Rap no Brasil

Por incrível que pareça, os únicos caras que estão na mídia, que estão conseguindo fazer o rap andar, são o Cabal e o D2. Quem de rap a gente tem hoje que é ouvido desde os moleques da favela até a classe alta? Os caras falam que não ouvem, mas eu vejo vários moleques lá da minha favela que estão andando de skate ouvindo D2. Eu ouço os moleques saindo da quebrada pra ir curtir na noite e eles estão ouvindo Cabal, eles são obrigados a ouvir. Porque é um dos únicos caras que faz um som agradável, pra pista, além de uma rapaziada nova que está chegando.

Esses são os caras que estão aí. Pode falar o que for dos caras, mas eles são os caras que estão fazendo o rap andar. Tem gente que fala: ‘Ah, mas o Cabal não é da rua’. E aí? Ele fez um rap com o Chitãozinho e Xororó. Ele está fazendo o rap andar. Fez um rap com o Charlie Brown Jr., coisa que antes eu via o RZO, o Sabotage fazendo. Eu queria ver uns rappers mesmo tipo Sabotage, Rappin Hood, fazendo a coisa andar mais, com várias participações. As pessoas criticam muito e esquecem da música, você tem que avaliar a música. Eu não quero saber se você fez música com a Wanessa Camargo, eu quero saber da música. A música é boa? Você gostou do vocal dela, do que ela falou? Gostou do beat? Eu não quero saber da Wanessa Camargo, quero saber da música.

É difícil de ouvir rap hoje. Se eu to no meu carro com a minha mina eu vou ouvir o quê? Tem uns caras do rap que tem mais uma malandragem, que são bons, tem, mas é ‘os mano’ ainda. Eu quero ouvir uma música que minha mina ouça e fale: ‘Esse som é da hora hein’. Pode falar o que for de ‘Senhorita’, mas as menininha do gueto gostam, a música é agradável. Não que os caras não tenham que focar o outro lado. Não dá pra ficar na mesmice também, falar que é tudo festa porque aí é mentira. Mas se falar que é tudo terror, também é mentira.

show solo

O rapper em em ação durante seu novo show solo - Divulgação

Single

As músicas já estão prontas, estão sendo finalizadas no estúdio do Dj QAP, o QAP Operante. Serão três músicas, que eu vou distribuir pros Djs e vender algumas cópias também. Uma das músicas vai chamar ‘Rolê Club’ ou ‘Clube do Rolê’, ainda estou decidindo, que é mais a minha cara, uma música mais funk, e foi produzida pelo Dedé, do Raciocínio das Ruas.

A outra se chama Ficar Rico, que é mais um crunk, o estilo de som que ta tocando nas festas americanas. Esse som foi produzido pelo Green Alien, um moleque da zona leste, meu parceiro, do grupo Klasse Korreria.

E tem uma música produzida pelo Dj Max, um moleque de Guarulhos que é bom pra caralho, já produziu pra vários caras, pro Lito Atalaia, Tio Fresh. Essa música que eu fiz com ele é mais voltada aos bailes, mais pop pista e o nome dela é ‘Número 1’. Elas vão estar nas ruas em breve, provavelmente no mês que vem. Quero soltar elas pra depois vir com o disco, vai ser uma prévia do disco.

Acesse o Blog e o MySpace de Thig Smith.

Ouça em primeira mão o som Número 1, de Thig Smith:
[audio="http://raps.podomatic.com/enclosure/2009-06-16T08_27_25-07_00.mp3"]

Leia mais sobre Thig no blog D.O.C Recordz.

Na segunda parte da entrevista, Thig fala sobre os fatores que, na sua opinião, não permitiram que o rap estivesse hoje em uma posição de destaque no cenário musical brasileiro.

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