Linha do tempo do rap nacional (parte I)

A história do rap no Brasil, desde o começo do bate-latas na Estação São Bento do metrô, em São Paulo, já tem mais de 20 anos. Porém, foi de uma década pra cá que o gênero começou a se popularizar e ganhar adeptos dos mais diferentes estilos e origens sociais. Faremos aqui, inspirados em matéria da ótima The Find Magazine, uma linha do tempo começando de 1999 (10 anos atrás) para tentar situar os mais novos e relembrar os mais velhos sobre o que de mais importante aconteceu envolvendo o rap no país, inclusive em sua relação com a mídia.

Lembrando que não temos a pretensão de fazer deste artigo a “retrospectiva definitiva” e corremos o grande risco de  estar esquecendo ou supervalorizando alguns fatos, baseados em nossa localidade (São Paulo), opinião e experiências pessoais. Mas vamos lá:

1999 – O rap nacional havia acabado de ganhar notoriedade com os Racionais MC’s, que lançaram o clássico “Sobrevivendo no Inferno” dois anos antes e foram os grandes vencedores do prêmio VMB, da MTV, no final de 1998, na categoria Escolha da Audiência. A música Diário de um detento foi exaustivamente tocada na grande mídia e alçou o grupo a um patamar nunca antes conhecido por um artista do gênero. O rap esteve em evidência também com MV Bill, que fez uma apresentação bombástica no Free Jazz Festival com uma arma na cintura e chocou o país levando o canto dos excluídos ao alcance da elite, apresentando músicas de seu primeiro trabalho, “Traficando Informação”, que fora lançado no ano anterior.

Além disso, 99 foi o ano em que nasceu a Academia Brasileira de Rimas, um dos grupos pioneiros do rap alternativo, referência até hoje, formado inicialmente por Akin, Kamau, Max B.O. e Paulo Napoli, e que ganhou alguns integrantes a mais durante sua breve, mas importante história. Também foi nesse ano em que ocorreu o Du Loco, evento pioneiro no Brasil que reuniu estrelas do rap internacional como Afrika Bambataa, Common Sense, De La Soul e Jungle Brothers. Foi o pontapé inicial para o que vem a ser hoje o festival Indie Hip Hop, realizado todos os anos desde 2002 no Sesc Santo André, em São Paulo.

Mv Bill por Ralf Sorgi (flickr.com/photos/ralfsorgi)

Mv Bill por Ralf Sorgi (flickr.com/photos/ralfsorgi)

Outros álbuns importantes: De Menos CrimeSão Mateus pra Vida; Facção Central – Versos Sangrentos; Face da MorteO Crime do Raciocínio; JigabooAs aparências enganam; Planet HempA invasão do sagaz homem fumaça;

2000 – Foi o ano de Xis. O paulista da zona leste havia lançado o disco “Seja Como For” em 99 pela 4P, seu selo ao lado de Kl Jay, dos Racionais, e ganhou o VMB com o melhor clipe de rap, pelo vídeo de Us mano, as mina. Com isso, ganhou visibilidade e relançou o disco pela Trama em 2000. Foi nesse ano também que a dupla de presidiários Afro-X e Dexter lançou o primeiro trabalho do 509-E, o elogiadíssimo “Provérbios 13”, diretamente do Carandiru para o resto do Brasil.

A banda de Recife (PE), Faces do Subúrbio, lançou o disco “Como é Triste de Olhar”, chamando a atenção do resto do país para o som permeado por elementos regionais (principalmente a embolada) e de outras vertentes musicais como rock e funk. Mais tarde, eles seriam destaque novamente, concorrendo ao Grammy Latino.

Acontecimento importante (e lamentável) também foi, cinco anos após o fim da ditadura, a censura da música e do videoclipe de Isso aqui é uma guerra, do grupo Facção Central, sob alegação de apologia ao crime, que gerou discussões sobre ética e glamourização da violência nos meios de comunicação.

O ano também marcou o início do Prêmio Hutuz, realizado no Rio de Janeiro, a maior premiação especializada em hip hop do país e que terá sua última edição agora em 2009.

Outros álbuns importantes: Doctor Mc’s – Mallokeragem Zona Leste; GOG – CPI da Favela; Ndee Naldinho –Preto do Gueto; Thaíde e Dj Hum – Assim caminha a humanidade; A.R.M.A.G.E.D.O.N.A.R.M.A.G.E.D.O.N.

2001 – Foi a vez de um outro grande ídolo nascer para o público. Com malandragem e desenvoltura únicas, Sabotage lançou seu primeiro disco solo, “Rap é Compromisso”, indiscutivelmente um dos melhores álbuns da década, e ganhou a simpatia de grandes expoentes da mídia brasileira. Além dele, Rappin Hood, o “negrinho magrelo com uma mancha no olho”, que já havia feito muito barulho com a música Sou Negrâo, uma ousada mistura de rap com samba, se estabeleceu definitivamente no cenário com seu disco de estreia, “Sujeito Homem”.

Um outro trabalho muito importante de 2001 foi o “Lado B do Hip Hop”, do grupo SP Funk, que trazia uma temática diferente nas letras, recheadas de metáforas e irreverência. Seguindo essa linha, outro trabalho que merece destaque, mais pela representatividade do que popularidade, é o “Produto Mentalfaturado”, do Ascendência Mista, grupo formado por Munhoz, Venom e Zorack. Foi um dos primeiros discos do chamado “rap alternativo” brasileiro, com letras e produções bem diferentes das que estávamos acostumados a ouvir na época.

Outros álbuns importantes: Potencial 3O melhor ainda está por vir; Apocalipse 162ª Vinda – A cura; Facção CentralA Marcha Fúnebre Prossegue; SNJSe tu lutas, tu conquistas; Kl Jay na batida vol. 3

2002 – O ano de 2002 foi marcado por uma grande produção de rap nacional, com músicas influenciadas por samba, soul e MPB. Foi um ano em que surgiram dezenas de boas novidades, mas nada alcançou o barulho que fez o disco duplo dos Racionais MC’s, “Nada Como um Dia Após o Outro Dia”, que consagrou o grupo como hors concours do gênero.

O rap estava na mídia como nunca conseguiu chegar de novo no Brasil: Sabotage destacou-se por emplacar a trilha sonora do filme ‘O Invasor’, de Beto Brant; Xis fez barulho com a participação na Casa dos Artistas; Nega Gizza foi a primeira mulher a fazer sucesso no estilo, com o disco “Na humilde”.

Além disso, tivemos o estouro na internet do coletivo Quinto Andar, um dos precursores da mistura de rap com jazz no Brasil. Com integrantes de várias partes do país, o grupo ganhou notoriedade rapidamente e até concorreu ao Hutuz como revelação, no mesmo ano. Ainda falando de rap alternativo, o clássico grupo Consequência, formado por Kamau, Sagat e Dj Ajamu, lançou neste ano o EP Prólogo, disco marcante por também apresentar novas possibilidades para a criação de música rap no país. Também foi o ano de estreia do festival Indie Hip Hop.

Um ponto negativo e que fez com que o rap começasse a perder um pouco de espaço foi a invasão das chamadas festas Black, onde o rap nacional começou a ser deixado de lado pelos Dj’s, preteridos pelos R&Bs dançantes  dos rappers americanos, que viraram uma febre entre os jovens do país.

Outros álbuns importantes: 509-E – MMDC (2002 Depois de Cristo); Da GuedesMorro seco mas não me entrego; DMNSaída de Emergência; MV BillDeclaração de Guerra; Z’Africa Brasil – Antigamente quilombos, hoje periferia

2003 – O ano começou com a triste morte de Sabotage, que foi assassinado na zona sul de São Paulo, e iniciou um processo de decadência no rap brasileiro. Se, assim como nos EUA, por aqui também tivemos uma Golden Age, podemos dizer que nossos Anos Dourados foram do fim da década de 90 até 2003. De qualquer forma, continuamos tendo alguns bons lançamentos, como o “A Procura da Batida Perfeita”, segundo disco solo de Marcelo D2, que fez sua carreira decolar definitivamente.

Marcelo D2 por Deco Rodrigues (flickr.com/photos/decorodrigues)

Marcelo D2 por Deco Rodrigues (flickr.com/photos/decorodrigues)

Outra boa novidade foi o “Evolução é uma Coisa”, segundo disco do RZO, que apresentou ainda uma legião de novos rappers, integrantes da chamada Família RZO, entre eles: DBS, Marrom, Nego Vando, Negra Li, Negro Útil, Pixote e o próprio Sabotage. O grupo, inclusive, integrou no fim deste mesmo ano o evento Hip Hop Manifesta, em Floripa e no Rio de Janeiro, patrocinado por uma marca de cerveja e que causou muita polêmica no meio do rap, com alguns artistas (como os Racionais) sendo contrários à participação. Este também foi um momento chave para entendermos o distanciamento do rap com a grande mídia que ocorreu nos anos posteriores, pois foi mais um dos fatores que contribuíram para esse “esfriamento”.

Outros álbuns importantes: Mzuri SanaBairros, cidades, estrelas e constelações; Mamelo Sound SystemUrbália; DBS e a QuadrilhaO Clã da Vila; B Negão e os Seletores de FrequenciaEnxugando Gelo; Clã NordestinoA peste negra; DMNEssa é a cena; Facção CentralDireto do Campo de Extermínio; Consciência HumanaAgonia do Morro; Slim Rimografia – Financeiramente Pobre

Atualizado em 08/11/09.

Continue acompanhando o Per Raps para conferir as outras duas partes desta matéria…

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